Saudade: News from and for the Brazilian community/Notícias de e para a comunidade brasileira

Brazilian Faces: Aguimar Carlos

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Penny Wong, Aguimar e Lydia Carlos - courtesy of Penny Wong

A tradução deste artigo se encontra no final da versão em inglês

This month’s Brazilian Faces is about Aguimar Carlos, one of the Brazilians who has been on Martha’s Vineyard the longest. I first heard of Aguimar in connection with the tragic moped accident that happened during the summer of 2016 and involved his business. Ask any Brazilian you know, and they will tell you that when something unfortunate happens to a Brazilian on Martha’s Vineyard, we all feel it; in one way or another, it affects us all. This winter, Aguimar started to work as a janitor at the Martha’s Vineyard Regional High School, and I had the privilege to get to know him as a person and witness his professional integrity. I have been meaning to tell his story ever since the accident. I felt that he never got to tell his side of things, defend himself. I am grateful he accepted my request to write about him, his story.

How did you get to the Island? Why did you immigrate to the U.S.?

I left Brazil when I was 27 years old, and at a time when the country had just promulgated its new constitution, which happened in October 1988. There was no Brazilian currency, and the inflation left people to live in absolute financial misery. I was one of those people who couldn’t even afford to buy the medication my daughter needed. I arrived in this country in the winter of 1988. I brought $80 and three changes of clothes (including the one I was wearing) in a trash bag. Like other Brazilians on the Island, I came to this country seeking the American dream, to have a better life.

How has your life been on this Island since the winter of 1988?

Thankfully, things got better. I met my wife, Penny Wong, shortly after I moved to the Island. We met in 1989 while we were working at a Chinese restaurant, the Golden Dragon, which used to be next to the Stop & Shop in Vineyard Haven. In 1990, I started to work as a mechanic for the moped shop, for which I am now one of the owners. I worked as a mechanic up until 2003, when I had the opportunity to buy the business.

Aguimar and Lydia Carlos in front of his moped shop in Oak Bluffs – courtesy of Penny Wong

How did the opportunity to buy the business come about?

It was not something that Penny and I decided to take on overnight and without much consideration, as we were aware of how the public felt about the moped business, and I am Brazilian, which also impacted our decision. My daughter Lydia was six months old at the time, and we saw this as an opportunity to sustain our family, to live a financially secure life, and give my daughter the life I never had and that I couldn’t give my daughter who still lives in Brazil until I arrived in this country. My bosses at the time believed in my work ethic, were aware that I knew the business inside out, and so we went ahead and became the new owners.

How was the beginning of the business?

Well, the hesitation we felt wasn’t unfounded, as when we went in front of the Oak Bluffs selectmen board to transfer the license, one of the selectmen at the time, who is no longer part of the board, questioned my ability to speak English, and whether or not I could operate a business. It was hurtful, but I had to take it as the cost of doing business.

How has the accident affected your family’s life?

It was devastating that someone got injured. I had been working in the moped business for 20 years, and an accident like that had never happened. People came out strongly after the owners and accused us to not care about safety and purposely break town regulations. It felt as if we became the face that they could project all the anger they feel toward mopeds. My daughter, who was an eighth-grader at the time and now a freshman, also encountered unpleasantries, as kids would come out to her and talk about it. We were cornered at restaurants. It was also financially devastating; my wife is leaving her job at the end of the school year as the Grace Preschool director because she had to find a position with higher pay. I started to work as a janitor this winter. We did whatever we had to do to save our business. It was a challenging year in every aspect; my livelihood, my ability to provide for my family were at risk, but I believe we have finally turned the corner.

How do you think this season will be?

I believe that the Oak Bluffs town and the public have recognized that we will continue to do our job with integrity. We will make sure that people renting the mopeds will read all the paperwork required to be filled out before someone rents a moped, and that they will read it carefully, that people will pay attention to the fine print where they put their initials. I always tell renters that when you are driving, you have to be careful with your life and the life of others around you. One minute you take your eye off the road and something could happen. We will do everything to continue to enforce the town regulations.

And as for being an immigrant that has conquered the American dream?

I don’t toss the word grateful around without knowing the weight it carries in my life. I have come a long way since I first arrived in this country. I work seven days a week, I honored all that this country represents, because it has and it continues to give me a chance to move forward with dignity. I chose to live on this Island because it reminded me of a piece of home. It is quiet, a tightly-knit community, and it was very welcoming to me. I hope I can continue to honor the Island community and face adversity with determination and a humble attitude.

Portuguese translation – Tradução em português

O Brazilian Faces deste mês é sobre Aguimar Carlos, um dos brasileiros o qual vive a mais tempo em Martha’s Vineyard. Eu ouvi falar do Aguimar pela primeira vez quando o trágico acidente involvendo a moto estilo lambreta locada em seu negócio aconteceu durante o verão de 2016. Pergunte a qualquer brasileiro que você conheça e eles lhe dirão que, quando algo lamentável acontece a um brasileiro em Martha’s Vineyard, todos nós sentimos isso; de um jeito ou de outro, isso afeta a todos nós. Neste inverno, Aguimar começou a trabalhar como zelador na escola de ensino médio de Martha’s Vineyard – à Martha’s Vineyard Regional High School, e eu tive o privilégio de conhecê-lo como pessoa e testemunhar sua integridade profissional. Eu sempre quis contar a história de Aguimar, desde o acidente. Eu senti que ele nunca pode contar o seu lado das coisas, se defender. Sou grata por ele ter aceitado meu pedido de escrever sobre ele, sua história.

Como você chegou à ilha? Por que você migrou para os Estados Unidos?
Saí do Brasil quando eu tinha 27 anos e numa época em que o país tinha acabado de promulgar sua nova constituição, o que aconteceu em outubro de 1988. Não havia uma moeda brasileira, e a inflação deixava as pessoas em um situação de absoluta miséria financeira. Eu era uma daquelas pessoas que não tinha nem dinheiro para comprar a medicação que a minha filha precisava na época. Cheguei nos Estados Unidos no inverno de 1988. Trouxe comigo U$80 e três mudas de roupa (incluindo a que eu estava usando) em um saco de lixo. Como outros brasileiros da ilha, eu vim para este país em busca do sonho americano, para ter uma vida melhor.

Como tem sido sua vida na ilha desde o inverno de 1988?
Felizmente, as coisas melhoraram. Conheci minha esposa, Penny Wong, logo depois que me mudei para à ilha. Nós nos conhecemos em 1989 enquanto estávamos trabalhando em um restaurante chinês, o Golden Dragon, que costumava ficar ao lado do Stop & Shop em Vineyard Haven. Em 1990, comecei a trabalhar como mecânico para a loja de motinhos estilo lambreta, da qual sou agora um dos proprietários. Trabalhei como mecânico desta loja até 2003, quando tive a oportunidade de comprar o negócio.

Como surgiu a oportunidade de comprar o negócio?
Não foi algo que a Penny e eu decidimos fazer de um dia para o outro e sem muita consideração, pois sabíamos como o público se sentia em relação a este meio de transporte e eu sou brasileiro, o que também impactou nossa decisão. Minha filha Lydia tinha seis meses na época, e vimos isso como uma oportunidade para sustentar nossa família, viver uma vida financeiramente segura e dar à minha filha a vida que eu nunca tive e que eu não poderia dar à minha filha que mora no Brasil até eu chegar neste país. Meus chefes na época acreditavam em minha ética de trabalho, sabiam que eu conhecia e entendia do negócio muito bem, e assim, fomos em frente e nos tornamos os novos proprietários.

Como foi o começo do negócio?
Bem, a hesitação que sentimos não foi infundada, quando fomos à frente da diretoria da cidade de Oak Bluffs para transferir a licença, um dos diretores da época, o qual não faz mais parte do conselho, questionou minha capacidade de falar inglês, e se eu poderia conduzir um negócio em inglês. Foi doloroso, mas eu tive que tomar isso como o custo de fazer negócios.

Como o acidente afetou a vida da sua família?
Foi devastador que alguém se machucou. Eu estava trabalhando no negócio de motos lambretas há 20 anos e um acidente como este nunca tinha acontecido. As pessoas se voltaram contra os proprietários da loja e nos acusaram de não nos preocuparmos com a segurança das pessoas que locavam as motos e que nós propositalmente quebramos as regras de segurança da cidade. Senti como se nós nos tornamos o rosto que eles poderiam projetar toda a raiva que sentem em relação as motos lambretas. Minha filha, que na época era uma aluna da oitava série e agora é caloura na Martha’s Vineyard Regional High School, também se deparou com desentendimentos, quando outros alunos se aproximavam dela para debater o acidente com ela. Nós fomos encurralados em restaurantes. Também foi financeiramente devastador; minha esposa está deixando o emprego no final do ano letivo como diretora da Grace Preschool porque precisava encontrar uma posição com um salário maior. Comecei a trabalhar como zelador neste inverno. Fizemos o que precisávamos para salvar nosso negócio. Foi um ano desafiador em todos os aspectos; meu sustento, minha capacidade de sustentar minha família foi colocado em risco, mas acredito que finalmente viramos à página.

Como você acha que será esta temporada?
Acredito que a cidade de Oak Bluffs e o público reconheceram que continuaremos a fazer nosso trabalho com integridade. Vamos nos certificar de que as pessoas que alugam as motos lambretas lerão toda a documentação necessária que deve ser preenchida antes que alguém alugue uma lambreta, e que leiam com atenção, que as pessoas prestem atenção as letras miúdas onde colocarão suas iniciais. Eu sempre digo as pessoas que estão prestes a locar as lambretas que quando você está dirigindo, precisa ter cuidado com a sua vida e com a vida dos outros ao seu redor. Um minuto que você tira o olho da estrada e algo pode acontecer. Faremos tudo para continuar a aplicar os regulamentos da cidade.

E quanto a ser um imigrante que conquistou o sonho americano?
Eu não uso a palavra gratidão sem saber o peso que ela carrega na minha vida. Eu percorri um longo caminho desde que cheguei a este país para chegar até onde estou. Trabalho sete dias por semana, honro tudo o que este país representa, porque tem e continua a me dar a oportunidade de vencer na vida com dignidade. Eu escolhi viver nesta ilha porque me lembra de onde venho no Brasil. É um lugar tranquilo, uma comunidade muito unida e que me acolheu quando precisei. Espero poder continuar honrando a comunidade da ilha e enfrentar adversidades com determinação e uma atitude humilde.